o jardim das freiras


o convento das freiras que fizeram voto de nunca mais verem ninguém, em mil novecentos a seguir a um desabamento encheu-se de rachas e pouco a pouco ruiu todo.
na colina não ficou mais nada e desapareceram até os cravos. no meio da erva só se vêem as tiras rosadas dos tijolos que marcam os alicerces.
mas salvou-se o jardim que antes estava fechado dentro dos muros. onde as freiras passeavam a apanhar ar e se divertiam a olhar para o cu das abelhas que esvoaçavam sobre a corola das flores ou as asas das borboletas que tremulavam por cima das margaridas.
as sebes com as folhas verdes e aqui e ali os canteiros das rosas, os vasos com gerânios, o arbusto de giesta, a arvorezinha dos lilases e todas as flores bravias ainda estão vivos e a erva não cresce no saibro dos carreiros.
um dia foi lá o maestro de uma banda aldeã e reparou que as andorinhas, pousadas nos fios da luz que passam pelo jardim abandonado, parecia que eram música escrita no céu. e pôs-se a cantar o que lia e era música sagrada.
agora o jardim pouca gente vem vê-lo, mas certas noites ouve-se o respirar das folhas.


(tonino guerra em o livro das igrejas abandonadas)


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